Capítulo 1: Vazio

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Fanfic MATURE (acima de 16 anos)


 BROKEN DREAMS


“Não choro mais. Na verdade, nem sequer entendo porque digo mais, se não estou certo se alguma vez chorei. Acho que sim, um dia. Quando havia dor. Agora só resta uma coisa seca. Dentro, fora”

Caio F.

. Capítulo 1: Vazio

A chuva caía fina na rua escura. Não sabia dizer quanto tempo ficara olhando através da janela. Não sabia dizer há quantas horas estava sem colocar nada na boca. Sabia que estava cansada, que precisava dormir, mas também sabia que era inútil deitar.

Esperava, sem ansiedade nenhuma, um telefonema. Sentiu algo vibrar em cima da mesa da sala fazendo um barulho que a sobressaltou. Pegou o aparelho rapidamente, sem sequer olhar para a tela.

“Alô” Sua voz há muito adotara um tom metálico. Duro. A suavidade morrera, com todo o resto.

“Independence, 211. Apartamento 103” A voz do outro lado era grave, áspera e urgente. Não esperou resposta por parte dela e desligou.

Suspirou, olhando uma última vez pela janela, antes de levantar-se, o celular esquecido na mesinha novamente. Aquele tipo de trabalho não deveria ser designado a ela. Seu alto potencial deveria ser usado de outras formas, mas sabia exatamente porquê a procuravam para isso também. Não tinha emoções, agia como uma máquina.

Pegou a arma que descansava no sofá ao seu lado e verificou se estava carregada. O som familiar ecoando pelo ambiente bem mobiliado. Definitivamente não era a única arma que levava. Nunca era.

Ajustou as duas pistolas à cintura, e verificou a que estava amarrada à perna. Fechou a jaqueta de couro negro, escondendo mais duas armas. Caminhou até o banheiro, onde retocou o batom vermelho sangue. Era a única cor em seu rosto, depois de seus olhos azuis.

Havia, é claro, aquela mancha negra ao redor de seu olho esquerdo, que chamava tanta atenção. Ela já se acostumara a isso. Era por essa mancha que ele havia lhe dado o apelido de Dominó. Apelido esse, que usava até hoje.

Passou as mãos nos cabelos curtos e lisos, sem encarar-se no espelho. Há muito fugia de seus próprios olhos. Há muito não fazia muitas coisas. Deixou o apartamento em seguida, sem se dar ao trabalho de pegar o celular na mesinha.

O endereço que ele lhe dera não era muito longe dali e por isso foi a pé. Sempre a pé. A chuva fina deixara apenas as pesadas nuvens do céu e as ruas molhadas. Não era de se estranhar as ruas estarem vazias, pelo horário avançado. Uns raros carros passaram por ela, sem nem notá-la. Era uma mancha escura nas sombras dos grandes prédios. Tão vazia quanto às paredes geladas que os sustentavam.

Sorte é uma coisa complexa. Algumas pessoas baseiam suas vidas achando que por “sorte” algo vai lhes acontecer do nada. Outras simplesmente não acreditam. Para ela, a “sorte” era parte integrante do seu ser. Tanto que não estranhou a escada de incêndio estar abaixada na lateral do prédio onde deveria ir, nem a o fato de não haver sequer uma luz acesa em nenhuma das janelas daquele lado. Isso era um ponto a seu favor, talvez não fosse vista por ninguém.

Começou a subir os degraus de forma ágil e silenciosa. Em poucos segundos já estava parada diante da janela. Por “sorte” ela estava aberta, a cortina oscilando lentamente para fora no ar frio da noite. Ela entrou. Sabia que deixaria pegadas molhadas pela casa, mas não se importou. Estava na sala de jantar e podia ouvir uns risinhos e sons abafados vindos do quarto. Revirou os olhos e não pensou duas vezes, seguindo em direção aos sons que ficavam cada vez mais altos. Sentiu o estômago embrulhar. Era normal. Sempre que seguia em direção a uma missão como essa, sentia-se assim.

A porta do quarto estava aberta e ela podia divisar o homem corpulento e grisalho deitado de costas na cama grande, olhando extasiado para a moça, muito jovem, que rebolava em cima de seu corpo. Sons guturais saiam do fundo de sua garganta, enquanto ela ria e rebolava mais, jogando os cabelos longos e loiros para trás.

Que bela ocasião para morrer. Domino entrou no quarto decidida. Em quatro longos passos se aproximou bastante, empunhando uma arma que apontava para a cabeça do homem. Viu os olhos dele se arregalarem, os dedos afundarem muito no quadril da moça, que soltou um grito de horror ao vê-la.

Foi tudo muito rápido. Sentiu o próprio dedo apertando o gatilho da arma, e a bala perfurando a cabeça do homem, o sangue sujando a parede branca atrás. A moça desesperou-se, levantando nua e tropeçando ao tentar correr. Domino apontou a arma para as costas dela e atirou novamente. Viu o corpo dela cair mole no chão, batendo antes num carrinho de bebida que tombou. As bebidas se misturando no carpete marfim. O sangue no carpete marfim.

Guardou a arma, e voltou pelo mesmo caminho em direção à escada lateral. E pelo mesmo caminho até o apartamento onde estava hospedada há apenas três dias. Assim que entrou, fechou a porta e jogou-se no sofá, o aparelho celular no ouvido.

“Está feito” E não havia alegria em sua voz. Tampouco tristeza. Não havia nada.


“Não, meu bem, não adianta bancar o distante: lá vem o amor nos dilacerar de novo…”

Caio F.

Acordou assustada. Seus olhos percorreram o quarto e de repente, saltou da cama, agarrando a arma que estava na cabeceira e apontando para o homem deitado de bruços. Ele, que acordara com o movimento brusco dela, levantou os olhos sonolentos e tão azuis quanto os dela e não conteve uma gargalhada.

“Porquê você sempre faz isso?” Ela suspirou, quando lembrou-se de onde estava e com quem, baixando a arma e depositando na cabeceira da cama novamente. Sentou de costas para ele. Era uma pergunta difícil de responder. O fato era que estava sempre alerta demais, a tudo e a todos. Ele escorregou as mãos pelas costas nuas dela. Ela sentiu um arrepio morno subir por seu corpo. “Eu tenho que voltar hoje” Ela já sabia. Ela sempre sabia. Levantou-se pegando as roupas espalhadas no chão e começando a vestir. “Não vai tomar banho?”

“Não” Ela queria manter o cheiro dele em seu corpo o máximo de tempo possível, mas jamais diria isso a ele. Ele se sentou na cama. Os músculos das costas largas se movimentaram quando ele espreguiçou.

“Porquê não volta comigo?” Ele perguntou de repente, quando passou por ela em direção ao banheiro. Ela já estava vestida, ajeitando as armas na roupa.

“Não”

“Você não é uma assassina Beatrice” Ela sentiu uma pontada por dentro ao ouvir esse nome, como se tivesse levado um tiro. Há muito tempo ninguém a chamava de Beatrice. O som da água correndo no chuveiro também doía. Ele estava tomando banho. Ele estava tirando o cheiro dela de seu corpo. Ele jamais entenderia.

“Você não sabe o que sou, Nathan” Ela disse e andou até a porta, abrindo. “Nunca mais me chame de Beatrice”

Só o que ele ouviu foi o som da porta batendo. Com força.


continua


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