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Fanfic MATURE (acima de 16 anos)
BROKEN DREAMS
“Menos pela cicatriz deixada, uma ferida antiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva”.
─ Caio F.
. Capítulo 3: O Passado
Havia todo um mundo de sentimentos por trás da máscara que ela carregava todos os dias, em todos os lugares. Não que se lembrasse deles o tempo todo. Tinha dias em que sequer pensava ter algo dentro de si, tamanha frieza em suas ações e palavras.
Mas, havia a chuva. Dias de chuva era sua fraqueza particular. Ninguém sabia, jamais saberia. Era difícil dizer o que alguém sabia sobre ela. Talvez Nathan, se prestasse atenção aos descuidos que ela cometia quando estava ao seu lado. Os raríssimos sorrisos sinceros e espontâneos que ela lutava para esconder, o brilho nos olhos azuis antes de se fecharem com o beijo, os suspiros baixos de felicidade ou tristeza na madrugada. Mas preferia acreditar que ele não via nada disso, que ele tinha muito mais com o que se preocupar.
E havia a chuva. Que naquele dia caía triste em pingos lentos e grossos, molhando o vidro da janela por onde os seus olhos se perdiam. Cada vez que assistia a chuva cair, sozinha, não conseguia impedir o seu mundo interior de vir à tona. Nem as lembranças…
Ambos sabiam as dificuldades de manter o relacionamento que haviam iniciado. Tinham plena noção de que poderia acabar a qualquer momento, que havia milhões de imprevistos que podiam separá-los. De uma hora pra outra. Sabiam tanto disso que não se permitiam pequenos mimos, como dar presentes um ao outro. Sabiam que se por acaso nunca mais se vissem, aqueles objetos seriam dolorosos demais de guardar. Entretanto, se presenteavam de outras formas. Para Beatrice e só era Beatrice com ele Milo sabia fazer isso muito bem. Acordava-a vez ou outra com um café da manhã na cama, dizia-lhe que a amava no meio da noite quando achava que ela estava dormindo, lia pra ela partes de seus livros favoritos. Viviam os minutos que tinham juntos como se fossem os últimos de suas vidas e talvez por isso o amor que cresceu dentro dela tenha sido tão avassalador. E ela se permitiu sentir de forma intensa. Sorria para ele, falava em tom suave e carinhoso, ria das brincadeiras dele, dizia que o amava abertamente. Sem medo.
“As vezes você me assusta” Havia riso na voz dela quando disse isso. Estava sentada no sofá, usando um jeans escuro e blusa branca leve. Os cabelos negros soltos, indo quase até sua cintura.
“Por quê?” Ele veio juntar-se a ela, deitando-se com a cabeça em seu colo. Ela começou imediatamente a correr os dedos pelo cabelo dele.
“Você advinha quase tudo que estou pensando”
“É porquê seus olhos falam demais. Dá pra ler tudo que você está pensando neles” Ele estava de olhos fechados e ela franziu o cenho.
“Não sabia que era tão transparente assim” A voz dela soou fraca. De repente ficou com medo. Sentiu-se muito vulnerável. Sentia os fios macios do cabelo dele nos dedos e de repente uma angustia pareceu tomar conta dela. Imaginou se nunca mais pudesse passar as mãos nos cabelos dele. Se nunca mais pudesse olhá-lo assim, sereno, deitado em seu colo. Imaginou nunca mais ouvir sua voz, ou ver seu sorriso com covinhas nas bochechas. E era como se não houvesse ar para respirar.
“Você é e tem que tomar cuidado. As pessoas costumam fazer mal uso disso”
Ela jamais se esquecera dessas palavras. Anos depois, elas ainda martelavam em sua mente, e a tinham tornado a mulher fria que era. Os olhos sem brilho, não demonstravam nenhuma emoção, nada mais. Foram poucos os dias que estiveram juntos depois dessas palavras, que ele lhe disse de forma tão séria, fitando-a profundamente. Parecia até que ele estava prevendo. Ela começou a ser chamada para outras missões, sendo substituída como guarda-costas de Milo Thurman por outros agentes. Começou sendo chamada uma ou outra vez em semanas. Depois uma vez no mínimo a cada semana. O número de vezes estava beirando o limite de todos os dias. Sentia-se triste, o coração apertado. Algo começou a lhe dizer que o que tinham tanta certeza no início quando decidiram viver juntos, estava por acontecer. Iriam se separar, talvez nunca mais se vissem na vida. Esse futuro parecia cinza e pesado demais para ela.
“Para que Thurman permaneça em segurança, as coisas terão de ser assim” a voz soou um pouco irritada a tantos questionamentos que ela tinha lhe dirigido.
“Mas…” a voz dela tinha um quê de desespero. Detestou esse sentimento, e ali mesmo prometeu jamais precisar tanto assim de alguém de novo.
“Você o ama, não é Domino?” Ele interrompeu a frase dela, a voz um pouco mais suave agora. Todos sabiam, mas trabalho era trabalho. O Governo tinha muito em risco para deixar que um relacionamento estragasse tudo. Ela desviou o olhar do dele. Ele pensou ter visto um brilho de lágrimas neles, mas o rosto era uma máscara dura, e se houve algum vestígio de lágrimas, ela as engoliu, pois quando voltou a fitá-lo, não havia emoção nenhuma nos olhos azuis.
“Isso não importa” A voz tinha ficado dura de repente.
“Importa sim. Se você o ama, é melhor que se afaste e nos deixe fazer nosso trabalho. Diremos a ele que você morreu. Você não pode voltar a vê-lo nunca mais Dominó. Para o bem dele” Ouvi-lo dizer as palavras de novo a atingiu como se ele houvesse tirado seu coração com a mão e agora o exibisse ainda batendo. Sentia-se fraca, como se a estivessem separando de algo vital. Entreabriu os lábios para respirar melhor, passando a mão pela testa. Deve ter ficado branca, além do normal, pois o homem se adiantou pra ela, preocupado. “Você está bem?” Ele não consegui tocá-la. Ela se afastou dele antes, muito séria.
“Tudo bem” A voz saiu fraca, e então ela respirou fundo antes de falar de novo. “Tudo bem, mas…” Ela engoliu em seco, o coração batia lento como se sua pressão estivesse muito baixa. “Eu posso… vê-lo?” Ia dizer pela ultima vez, mas não teve coragem. Doía demais. Por mais que soubessem que um dia isso aconteceria, descobria agora que não estava preparada. Talvez nunca estivesse.
“Você poderá estar com ele apenas até amanhã às 14h, quando será contatada para uma nova missão e não…” Ele parou antes de completar, não havia necessidade de reforçar o que já havia dito mais de cinco vezes para ela. Ela ainda manteve-se em pé, os olhos perdidos na parede atrás dele, por um minuto. Ele achou que ela iria agradecer, mas ela apenas disse.
“Estarei aguardando o contato” A voz dela era puro gelo.
Talvez ninguém possa saber o que é estar com quem se ama, sabendo exatamente que dali a algumas horas nunca mais se verão de novo. Nem ela mesma conseguia definir como era esse sentimento. Quando ele abriu a porta do apartamento pra ela, teve vontade de abraçá-lo forte e chorar em seu ombro toda a dor que estava carregando, mas não podia. Então sorriu. Temeu que seus olhos contassem para ele toda a verdade, mas ele a puxou para um beijo e não notou seus olhos. Não notou que ela tentava diminuir o ritmo do beijo, para que fosse lento, demorasse a acabar, para que desse tempo de gravar todas as sensações, guardar todo o gosto. Ele sorriu na boca dela, achando graça, mas ela empurrou-o pra dentro, batendo a porta com o pé. Foi levando-o sem desgrudar os lábios dos dele até a cama, caindo com ele nela. Ele segurou-a pelos ombros, erguendo-a um pouco, olhando-a com malícia e carinho.
“O que deu em você?” A voz dele era um misto de riso e volúpia.
“Eu te amo” Disse, e voltou a beijá-lo, descendo da boca dele, para seu pescoço, respirando fundo ali, para armazenar o cheiro dele na memória. Passava os lábios na pele quente dele, e a língua depois, fazendo-o respirar fundo. Era estranho porquê tinha uma urgência dele, mas queria que fosse lento, pra aproveitar, pra guardar. Suas mãos trêmulas abriram a camisa dele. Sentou-se sobre o corpo dele, passando as mãos por seu peito, descendo para a barriga. Sentiu o baixo ventre dele tremer quando insinuou dois dedos por dentro da calça e cueca. As mãos dele também não estavam paradas, tinham entrado por baixo de sua blusa, e subido até seus seios, que acariciava devagar com a palma das mãos quentes. Ela estremeceu, gemendo baixinho. Olhou pra ele, e nunca iria esquecer aquele rosto, aquela feição. Dormiram juntos, ela abraçada a ele como se dependesse disso para viver. Quando acordou, seu coração disparou ao olhar ao seu lado e não vê-lo. Mas logo o avistou fazendo o café na cozinha. Gravou aquela cena, sentindo os cílios pesados de lágrimas. Foi até ele, vestida na camisa dele, abraçando-o por trás. Ficou com medo de ter molhado as costas dele com suas lágrimas, mas ele pareceu não notar enquanto conversava com ela como sempre. Não se lembra do assunto, mas a voz sim. A voz dele ela ouvia claramente, gravando-a na mente.
Naquele mesmo dia, mais tarde, ela teve que se conter para não chorar quando sentiu o celular vibrando no bolso. Talvez tivesse feito uma expressão de assombro, pois ele olhou pra ela arqueando a sobrancelha. Ela pegou o celular e olhou para o visor, mesmo sabendo quem era. Os números no canto inferior do visor diziam que eram 13:58. Mais do que pontuais. Ela atendeu, trocou pouquíssimas palavras e olhou para Milo. Ele estava sentado a mesa. Tinham acabado de almoçar, depois de passar quase a manhã toda na cama. Queria ignorar o chamado, o horário, o que tinha que fazer. Por um momento não soube o que dizer ou fazer, ficou olhando pra ele, as lágrimas se acumulando no canto dos olhos. Levantou-se e foi até o banheiro, enxugando os olhos e lavando o rosto. Não podia estragar tudo agora.
“O que foi?” Ele estava na porta do banheiro, olhando pra ela com a testa franzida.
“Eu preciso ir, Milo” Foi o que conseguiu dizer.
“Eu sei, mas porquê está chorando?” Ele foi até ela, abraçando-a. “Desde ontem” Ela se chocou. Então ele tinha visto, ele tinha notado.
“Não é nada” Beijou o pescoço dele, afastando-se e sorrindo. “É só esses chamados constantes. Queria poder ficar mais com você” Queria ficar para sempre. Completou em seus pensamentos.
“Você está sempre comigo, Beatrice” Ele parecia saber, e ela teve que se esforçar muito pra não chorar de novo. Ao invés disso, sorriu. Deu-lhe um beijo carinhoso, e passou por ele. Era melhor ir logo.
“Eu te amo, Milo” E abriu à porta, ele olhava pra ela, sério.
“Eu também te amo Beatrice” A porta se fechou.
O que havia fora daquele apartamento não era mais vida pra ela. Tudo era cinza, escuro, dor. Deixou as lágrimas correrem livres enquanto descia as escadas. Não consegue se lembrar de muita coisa depois disso. Trabalhou ainda por algum tempo para o governo, em outras missões e por muito tempo não teve sequer uma notícia de Milo. E doía demais. Tanto que não conseguiu se manter lá por muito tempo. Já havia passado por diversas organizações, algumas até mercenárias, sem conseguir se manter em lugar algum. Era como se não houvesse mais lugar para ela no mundo que não os braços dele. Estava na X-force trabalhando em parceria com Cable, quando soube a última notícia sobre ele. Ele havia sido seqüestrado por Lady Letal e Donald Pierce, que tinham interesse na incrível habilidade profética natural de Thruman e seus profundos conhecimentos sobre as tendências mundiais. Rastreou-os até descobrir que estavam na antiga base da Arma X no Canadá. Até então, achara que a lembrança mais dolorosa que tinha dele, era seu rosto sério ao dizer que a amava antes dela fechar a porta atrás de si para nunca mais voltar. Estava enganada. Tão tolamente enganada. O metal frio das paredes do laboratório não a impressionaram. As artimanhas de Lady Letal e Pierce não a impressionaram. Demorou algum tempo lutando contra Lady Letal até derrotá-la, derrotando Pierce em seguida. Mas isso não importava. O que realmente a marcou foi vê-lo. Ele parecia no mínimo uns vinte anos mais velho, embora só se tivessem passado dez. Seus olhos estavam fechados, os braços jogados ao lado da cadeira, inertes e sem vida. Enquanto Dominó lutava para derrotar Lady Letal, Pierce teve tempo suficiente para fazer a transfêrencia dos conhecimentos e habilidades de Thurman para si. O processo era arriscado e doloroso. Thurman não havia resistido.
“Não” Era um sussurro baixo. Deu um passo na direção dele.
“Beatrice, não acho…” Era a voz de Nathan atrás dela, ele a segurou pelo braço. Ela soltou-se bruscamente, lançando-lhe um olhar duro.
“Não ouse” Disse, virando-se novamente e indo lentamente até o corpo de Milo.Tocou o rosto dele com as pontas dos dedos. Ainda estava quente. Achou que choraria, mas não havia resquício de lágrimas em si. Só dor e ódio. Quis vingar-se do governo que havia prometido cuidar da segurança dele. Não era por isso que ela havia sido privada de sua presença? Quis acabar com aquele lugar, não deixando nenhum vestígio de onde ele estivera e sofrera. Quis destruir o mundo. O toque leve de Nathan em seu ombro a tirou dos devaneios e para sua surpresa, sentiu gratidão por ele estar ali com ela. Ele já havia feito tanto por ela. Ergueu os olhos azuis pra ele, secos.
“Eu sinto muito, Bea…”
“Dominó” Ela disse, sem raiva. “Me chame de Dominó” Beatrice havia morrido ali, com Milo. Não havia mais Beatrice, para ninguém. Usara o nome por aqueles anos longe dele, mas agora já não fazia mais sentido.
Nada mais tinha sentido.
• continua •

