Capítulo 4: Desastres

Personagens e lugares pertencem à X-men™

Fanfic MATURE (acima de 16 anos)


BROKEN DREAMS


Ela chamava-se Beatriz. Ele chamava-se – não vem ao caso. Mas não era Dante, ainda não. Anos mais tarde, tentaria lembrar-se de como tudo começou. E não conseguia. Não conseguiria, claramente. Voltavam sempre cenas confusas na memória. Misturavam-se, sem cronologia, sem que ele conseguisse determinar o que teria vindo antes ou depois daquele momento em que, tão perdidamente, apaixonou-se por Beatriz”.

Caio F.

. Capítulo 4: Desastres

será que ela é triste

Ela chamava-se Beatrice. Era alta, magra, cabelos negros curtíssimos e um rosto delicado demais para o semblante sério. Ela lembraria uma fotografia em branco e preto se não fossem os olhos muito azuis e os lábios muito vermelhos. E tinha aquela marca negra ao redor do olho esquerdo que contrastava demais com a pele excepcionalmente branca. Era uma beleza incomum. Exótica e incoerente.

Incorente porquê também tinha um rosto delicado demais para o número de armas que trazia na cintura e amarradas às coxas. E o andar leve demais para o peso que parecia carregar nos ombros. Os olhos eram vazios demais para o sorriso sarcástico que curvava seus lábios vermelhos.

Ele sabia que o sorriso se devia ao fato de ele ter ficado parado olhando-a sem saber exatamente o que dizer. Então sorriu também. Um sorriso divertido e sem graça.

“Nathan Summers?” E a voz dela congelava o ar, embora fosse muito feminina. Assentiu com a cabeça e desviou os olhos dela para procurar uns papéis sobre a mesa.

“E você deve ser…” Ele virou um papel que estava de ponta cabeça e leu o nome. “Dominó? Que… diferente”

“Pode me chamar de Beatrice, se preferir” Ele notou a voz dela tremer quase imperceptívelmente ao dizer o nome. O sorriso morreu nos lábios vermelhos. Obviamente ele não entendeu e não ia questionar.

“Beatrice. Muito bonito seu nome” Ela não agradeceu, nem sorriu. Pouco tempo depois ele saberia que raramente ela curvava os lábios num sorriso e quando o fazia era geralmente cínico, sarcástico. Pouco tempo depois ele descobriria que ela raramente dizia algo, e quando o fazia era em tom frio ou irônico. E também descobriria que ela era sombria demais. E triste demais. Algum tempo depois ele saberia o porquê.

e se ela chora num quarto de hotel

Ela chamava-se Beatrice. E de vez em quando sorria de forma espontânea a algo que ele dizia. E esse sorriso era lindo. Ela tinha dentes brancos e perfeitos entre os lábios vermelhos sangue. Só que ela só lhe dava alguns breves segundos antes de perceber que sorrira assim, e disfarçar. Dizer algo enquanto se escondia atrás da máscara séria de novo.

E ela era ótima no que fazia. Não queria parecer envolvido quando dizia que era a melhor dos membros do Six Pack, mas todos notavam. Todos menos ela.

Ela jamais deixava uma missão pela metade e não havia obstáculos que a fizessem parar antes de antigir o objetivo. E ela não hesitava antes de eliminar esses obstáculos. Contanto que o objetivo que queria alcançar fosse nobre, e os obstáculos ─ sentinelas, mutantes ou humanos ─ fossem de alguma forma culpados. Ela ainda era muito justa.

E sabia muito pouco da história dela. Por vezes achava que não havia nada antes dela ter adentrado a base da Six Pack com seus olhos vazios e o sorriso irônico. Outras achava que havia coisas demais antes disso que haviam moldado aquela máscara séria de olhos vítreos.

De qualquer forma ele jamais perguntara e ela jamais tinha dito nada sobre si. Ela agia o tempo todo como se fosse uma máquina e não uma pessoa. As vezes, quando a via trabalhar, realmente acreditava que ela era uma máquina, embora soubesse que havia uma pessoa atrás de toda aquela frieza. No fundo dos olhos azuis vazios, havia alguém gritando por socorro.

Certa vez, bem no início da carreira dela na Six Pack, bateu na porta do quarto dela num hotel que haviam se hospedado para concluir uma missão no sul do Japão. A chuva caía tempestuosa lá fora e ela demorou muito para abrir. Quando ela finalmente apareceu diante dele, notou os cantos dos olhos vermelhos e teve quase certeza que ela estava chorando.

Ficou um pouco chocado porquê nunca a imaginara chorando. E isso vindo justamente dela era triste demais. Não conseguia imaginar que espécie de dor arrancara lágrimas dos olhos azuis vazios. Sentiu pela primeira vez vontade de abraçá-la e fazer com que, fosse o que fosse, deixasse de feri-la.

“Sim?” Ela quebrou os devaneios deles com aquela voz gelada, embora o timbre estivesse levemente trêmulo.

“Só queria saber se está tudo bem”

“Você não tem que se preocupar comigo” As palavras duras fizeram com que um sorriso dançasse em seus lábios enquanto buscava palavras para respondê-la. Ela porém, poupou-lhe este trabalho. “Preciso dormir. Boa noite” E a porta se fechou antes que ele pudesse abrir a boca para responder. Em todos os anos que se seguiram àquela noite ele nunca mais vira nos olhos azuis qualquer resquício de lágrimas.

diz quantos desastres tem na minha mão

Ela chamava-se Beatrice. E sempre que podia estava com ela, tentando protegê-la, embora soubesse que ela não precisava disso. E por este motivo mesmo é que não se perdoava de ter deixado algo daquele porte acontecer debaixo de seu nariz.

Já não eram mais membros do Six Pack. Há pouco tempo haviam formado o que se chamava de X-force. E lá estava ela, ao lado dele. Como ele podia não ter notado que ela sorria demais.

Que os olhos azuis não estavam mais tão vidrados e vazios. E que a voz não era mais tão fria, tão pouco irônica. Não era ela. Como não tinha notado? Depois de alguns anos observando-a. Depois de achar que a conhecia, como pode só descobrir que não era ela, tanto tempo depois?

Há meses, Dominó estava sendo mantida em cativeiro por Tolliver, seu próprio filho, que infiltrara uma mutante chamada Vanessa Carlyle na base da X-Force. Quando Nathan e os demais membros da X-force descobriram já era tarde demais. Carlyle já havia conseguido causar a destruição da primeira base do grupo.

“Você está bem? Eles fizeram alguma coisa a você?” Cable havia ido imediatamente resgatá-la. Precisava vê-la, saber que estava bem; viva. O coração batia descompassado.

“Sabia que viria” A voz dela soou rouca e um pouco menos gelada que o normal. Os olhos azuis vazios o fitaram e ficou agradecido, quase sorriu.

“Eu deveria ter vindo há muito tempo. Deveria ter notado a diferença entre vocês, deveria…”

“Obrigada” Ela abriu um sorriso sincero. Lindo. Ela estava linda, apesar das olheiras, dos lábios esbranquiçados, dos cabelos em desalinho. Era ela. E ela era linda de qualquer jeito. Sentiu algo remexer no peito ao olhar para aquele sorriso, embora soubesse que se fecharia assim que ela notasse o que estava fazendo. Sentiu um certo receio ao perceber que até isso achava charmoso nela.

será que é loucura

Ela chamava-se Beatrice. E o gosto da boca dela era uma mistura de batom, paixão e aquele sabor amargo de tristeza que se carrega há muito tempo. Os lábios dela eram macios e a primeira vez que se beijaram havia tanto desespero e ansiedade que os dentes se chocaram na boca, e as linguas se misturam como se fossem feitas apenas para isso.

A pele dela era quente ao contrário do que imaginava. E branca como leite. Macia e suave demais. Mas não teve tempo de sentir como gostaria, porquê havia urgência a primeira vez que se tocaram. E pressa, paixão, instinto.

Os cabelos negros dela eram curtos e escapavam de seus dedos sempre que queria segurá-los. Eram lisos demais. Talvez uma aviso silencioso de que não poderia jamais tê-la. Ela escaparia dele como os finos fios negros que sempre escorriam por seus dedos.

Mas havia o pulso dela que era fino e adorava rodeá-lo com sua mão forte enquanto abandonava seu corpo sobre o dela, ou o contrário. Tinha uma necessidade estranha de segurá-la de alguma forma, como se isso fizesse com que ela pertencesse a ele. Ela não pertencia, talvez jamais pertenceria e ele sabia. Mas negava.

me leva para sempre Beatriz

Ela chamava-se Beatrice. E estava correndo ao seu lado pelos corredores de um laboratório abandonado em Paris. De repente, um clarão e o barulho ensurdecedor de algo explodindo, destruindo. Pulou sobre ela sem pensar para protegê-la dos destroços.

A cicatriz funda no alto de suas costas era o prêmio que carregava por esse ato. E as lembranças daquele dia.

“Nathan, já disse milhares de vezes que não preciso ser protegida” Ela o empurrou para uma parede de um beco num dos bairros mais pobres de Paris, sem se importar com o ferimento dele nas costas ou a careta de dor que ele fez. Estava furiosa, as palavras saíam por entre os dentes e o seu rosto estava tão próximo que ele sentia o hálito quente dela no rosto.

“De nada, Beatrice” Disse com a voz cansada.

“Fui muito bem treinada e não preciso de um guarda-costas” Ela ia dizendo, ainda muito próxima. Ainda muito furiosa.

“Eu sei”

“Sei me defender muito bem. Não preciso que fique cuidando de mim o tempo todo”

“Eu sei”

“Não preciso que cuide de mim nunca” Ele suspirou antes de segurá-la com força pelos pulsos. Girou o corpo trocando de lugar com ela, batendo as costas dela na parede com força.

“Chega” O tom foi baixo. Poderia jurar que ela estava esperando que ele gritasse. Pensou em falar muitas outras coisas, mas apenas suspirou. Estava cansado, com dor e queria ir pra casa. Soltou-a e começou a andar em direção ao hotel que estavam hospedados.

“E-eu… Você poderia ter morrido” Ela disse de repente, ainda encostada na parede, os braços ao longo do corpo. A voz dela soou quase doce. Ele sorriu de costas, e então voltou até onde ela estava. Sem dizer nada puxou-a para o seu corpo.

“É bom saber que se importa” Ele disse e encostou os lábios aos dela. Ela fechou os olhos e espantosamente disse muito baixo na boca dele, antes de beijá-lo.

“Eu me importo”

Para sempre é sempre por um triz

Ela chamava-se Beatrice. E o deixou. Foi embora no meio da madrugada. Desapareceu. Nathan levou algum tempo para assimilar essa verdade. No início não entendeu, ficou se perguntando o porquê. Até lembrar-se das flores.

Aquela maldita idéia de lhe dar flores como uma lembranço do dia em que haviam se conhecido há muitos anos atrás. Ele não saberia dizer quantos, mas lembrava-se da data e quis ser romantico. Achou que poderia uma vez na vida ser diferente e comum, como um homem qualquer que vai até a floricultura para comprar flores para a esposa. Quis dar-lhe um presente. Quis de alguma forma dizer a ela que também se importava.

“Por quê isso?” A pergunta fria o deixou sem graça, mas não fez com que seu sorriso se desmanchasse.

“Gostou?” Ele estendia o arranjo de gérberas vermelhas na direção dela que o olhava desconfiava e não fazia um gesto sequer para pegá-las. O olhar dela desviou momentaneamente para as lindas flores vermelhas.

“Não gosto de flores” A voz dela tremeu e ele soube que era mentira.

“Claro que gosta. Agora pare com essa pose, pegue logo e coloque num vaso” Ele disse, um pouco nervoso, empurrando o arranjo para ela.

“Mas por quê isso?” A expressão dela era indecifrável enquanto observava as gérberas em suas mãos.

“Porque… porquê sim” Ele tinha passado por ela indo sentar-se no sofá da base da X-force.

“É a primeira vez que ganho flores” Ela disse de repente. Havia a sombra de um sorriso no canto de seus lábios.

“De nada”

E ela se fora. Ele não era um homem comum. Ela não era sua esposa. Nathan tinha quase certeza que fora o medo de se envolver. Ele também tinha esse medo, mas não iria fugir.

Desde que havia presenciado a morte de Milo Thurman, ela havia ficado ainda mais sombria. Ainda mais triste. E muito embora ela jamais tivesse dito nada a respeito do passado ou dele, Nathan sabia que ele era importante. Que havia uma Beatrice antes e uma depois de Thurman.

Aliás, após a morte de Thurman, não havia mais Beatrice. Desde então ela não permitia mais que ninguém a chamasse dessa forma. Era Dominó agora. E apenas Dominó.

Beatrice ou Dominó, Nathan tinha em algum momento entre os beijos e as brigas, se apaixonado por ela. Por aquela beleza exótica e personalidade tão contraditória. Pela frieza, pelos sorrisos sarcásticos, pelo tom metálico e duro da voz. Por tudo que ela era, que tinha se transformado. Não queria nada além disso.

Nada além dela.

e se eu pudesse entrar na sua vida

Ela chamava-se Dominó. E ele finalmente a encontrara depois de muito tempo de rastreamento. Lembrava-se muito pouco de sua infância, mas uma frase de sua “mãe” Jean jamais lhe saíra da mente.

“Você Nathan … será capaz de captar o sussurro de uma mente do outro lado do planeta ou apagar uma estrela distante com um simples pensamento…”

Sorriu ao pensar nessa frase, enquanto olhava para a porta fechada do apartamento dela no suburbio de Nova Iorque. Realmente tinha toda essa capacidade, muito embora o vírus lhe tirasse uma porcentagem considerável. Mas para o que havia ido fazer, isso de nada lhe adiantava.

Bateu na porta. Silêncio. Bateu novamente. Passos. A maçaneta girou lentamente e ele pode ver os olhos azuis vazios fitarem-no com espanto quando ela abriu a porta. Tinha elaborado diversos discursos para o momento: furioso, romântico, melodramático, sério…

No entanto, sua mente ficara vazia de repente e a única coisa que pode fazer foi puxá-la para si num beijo urgente e apaixonado. Ela correspondeu e entraram no apartamento escuro entre beijos rápidos e desesperados. Ele fechou a porta com o pé, pegando-a no colo e andandando cegamente para o quarto.

O que houve a seguir foi uma mistura de mãos, braços, pernas e pés. Paixão com suor, saliva e perfume. Cabelos e pêlos e pele. Instinto e sentimentos misturados. Contraditórios.

Adormeceram em seguida. Ou ele adormeceu em seguida, pois no meio da noite quando acordou, viu os olhos azuis vazios o fitando.

“Por quê?” Perguntou com a voz rouca de sono.

“Porque é melhor assim” A voz dela tinha aquele timbre gelado.

“Para quem?”

“Para nós dois”

“Fale por você, Bea…”

“Já pedi que me chame de Dominó”

“É a força do hábito” Ela se mecheu na cama, ficando de barriga para cima, os olhos presos no teto. “E o que você anda fazendo?”

“Trabalhando”

“Para quem?”

“Isso importa Nathan?”

“Não” O que realmente importava era o fato de ela não estar mais com ele, de estar ali mais distante do que nunca. Mais inalcançável do que nunca. “Vai ser assim agora?”

“Assim como?”

“Não quero deixar de vê-la” Ele olhou pra ela e poderia jurar que havia algo nos olhos geralmente vazios. Ela ficou de costas para ele e suspirou. Ele por sua vez a puxou para perto, abraçando-a.

“Não deixe” Ela falou baixo demais. Talvez no intuito de que ele não ouvisse.

Mas ele ouviu.

diz se é perigoso agente ser feliz

Ela chama-se Dominó. Mas ele insiste em chamá-la de…

“Beatrice” Era um murmúrio misturado com suspiro, tão baixo que ninguém ouviu. Ele ainda estava parado na rua, fitando a esquina vazia por onde ela desaparecera correndo. Fugindo dele. De novo. O peito doía um pouco com aquela sensação de perda. De frustração. Já fazia algum tempo que se encontravam assim, entre uma missão e outra.

Ele também não gostava disso. Também não gostava de ter que deixá-la, de ter que ficar semanas sem vê-la. As vezes meses. Ele não entendia porque tinha que ser assim. Porque ela tinha que ser assim, embora só a conhecesse dessa forma e não desejasse outra.

No fundo também sabia que as circunstâncias e a vida jamais permitiriam que eles ficassem juntos. Não como gostariam. Haveria sempre algo mais importante a fazer. Um mundo a ser salvo. Por eles.

Mutantes não são humanos. São algo mais e portanto não podem se dar ao luxo de ter uma vida comum. Não podem negar as habilidades que têm, não podem simplesmente esconder-se numa aparente simplicidade apenas para ser feliz. Algo dentro deles sempre, sempre clamará por mais. Infelizmente essa verdade não inclui felicidade. Só dever e justiça. Destino e missão.

E por isso, jamais seriam apenas um do outro.


• continua •


Dedico este capítulo à minha amiga Poetriz que muito docemente compartilhou comigo a citação inicial de Caio F. e que por isso me inspirou a escrevê-lo.

# As frases que separam as cenas são da música Beatriz de Chico Buarque de Holanda e estão fora de ordem.

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